• Rodrigo Leão
  • 17 Fevereiro, 2020

Rodrigo Leão fala sobre “O Método”

Comecei a procurar ideias para este novo trabalho em meados de 2017, no meio de uma tour europeia com o Scott Matthew, depois do lançamento do CD Life is Long.

Como é habitual no meu processo criativo, os primeiros passos são sempre muito intuitivos e sem nenhum método! Algumas ideias surgiram em quartos de hotel. Em Novembro de 2017 gravámos as primeiras ideias no nosso estúdio caseiro, mas ficámos com dúvidas.

A verdade é que, depois de três trabalhos muito diferentes entre si – A Vida Secreta das Máquinas, O Retiro e Life Is Long – a minha necessidade de procurar novos caminhos aumentava, a par das influências de compositores como Nils Frahm, Ólafur Arnalds ou Max Richter.

Foi neste contexto que convidámos o músico e produtor italiano Federico Albanese para se juntar a nós. Tanto eu como o Pedro Oliveira e o João Eleutério percebemos que fazia sentido neste trabalho termos um ouvido de fora, e o meu amigo e manager António Cunha já tinha sugerido que experimentássemos trabalhar com um elemento novo.

Este momento coincidiu com outro não menos importante: o convite para compor música para uma exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, “Cérebro – Mais Vasto Que o Céu”. Nesse trabalho, co-produzido pelo João Eleutério e pelo Luís Fernandes, aprendemos muito sobre sonoridades ambientais electrónicas, que viriam a ser muito úteis neste novo disco.

As primeiras sessões de trabalho não foram fáceis, mas rapidamente chegámos a um método de trabalho que nos permitiu aproximar-nos das ideias que procurávamos. O Federico foi muito importante neste processo, propondo arranjos e instrumentações diferentes. Com a sua ajuda, as minhas ideias começavam a fazer sentido e todo o ambiente mais minimalista, etéreo que pretendia estava agora mais visível.

O Método acabou por ser o disco onde toquei mais piano acústico, o que veio mudar muito o som geral, para além de haver menos uso das cordas. E recorremos também a um coro juvenil com cerca de 20 vozes, que era uma das minhas ideias desde cedo.

É um disco mais contido, mais simples, mais depurado. Um pouco mais espiritual também… A própria música, mais ambiental, afasta-nos da nossa realidade. Assumi também um lado ingénuo que já sentia em alguns dos trabalhos anteriores.

Nos temas cantados, a minha intenção era inventar palavras, para não ter de usar nenhuma língua específica e tornar as canções mais abstractas. Existe um tema em inglês, “The Boy Inside”, cantado pelo Casper Clausen dos Efterklang; um cantor sugerido pelo Federico, mas que eu já conhecia e de que gostava muito. Outro tema, “O Cigarro”, é cantado em russo pela violinista Viviena Tupikova, que também escreveu a letra e toca há muito comigo. A cantora Ângela Silva, com quem trabalho há muito, também foi muito importante, quer pela sugestão de arranjos vocais, quer pela maneira pouco habitual de cantar com palavras que não existem.

O título foi mudando ao longo do tempo, mas O Método acabou por ser óbvio. Porque foi o disco onde mais procurámos um método para chegar a um resultado final. Mas para mim é muito mais interessante sentir o método de uma forma mais abstracta, filosófica.

Teremos todos um método interior para tentarmos fazer algo, para comunicarmos, sonharmos?

Vejo nestas músicas muitas perguntas que não têm respostas. Vejo uma criança a apontar para o céu: porque é que existimos? Para onde vamos depois de morrer? Qual o sentido da vida?

Gosto que a minha música faça perguntas, mesmo que elas não tenham resposta. Quer dizer que ela comunica com quem a ouve, que nos ajuda a pensar e a sonhar.

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